Janeilson Carlos Damasceno
Resumo
METAFPISICA CONTEMPORÂNEA
Trabalho apresentado na disciplina de historia da filosofia contemporânea II, Prof: Dax Moraes
Como requisito parcial avaliativo do Curso de Filosofia da Universidade estadual do Rio grande o norte, campus de Caicó, para a obtenção dos créditos da disciplina do 5° período .
caicó-RN
2009.1
Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos. (Oawaldo Giancoia Junior)
1- Metafísica, platonismo e niilismo.
Nietzsche revendo o platonismo pretende superar a metafísica pela transvaloração dos supremos valores da cultura ocidental. Para ele a raiz do pensar metafísico se encontra no idealismo platônico, com a doutrina das idéias e a oposição entre os mundos sensível e mundo inteligível.
O fato de que “Deus esta morto” esta associado a superação da metafísica. Heidegger observa que Deus é nome para o âmbito das idéias e dos ideais. Esse âmbito do supra-sensível vale como mundo verdadeiro e real desde Platão. Já o mundo sensível é apenas o mundo mutável, aparente, não real.
Uma das idéias-chaves da interpretação de Nietzsche, é a relação de Platão com o platonismo onde é constituído uma significação ética para a existência do mundo e do homem. Bem, belo e verdadeiro institui um vinculo entre conhecimento verdadeiro e moralidade. De acordo com Nietzsche, Platão foi influenciado por seu mestre Crátilo a interpretar no mesmo sentido a sentença de Heráclito: “tudo muda e nada permanece”. Para Nietzsche com essa proposição se abrem duas direções hermenêuticas diversas: primeiro se dissermos a matéria de todas as coisas modifica-se perpetuamente, significa que todas as coisas renovam permanentemente as suas partes; se dissermos que toda coisa singular passa, e nenhuma permanece eternamente, significa que nenhuma coisa individual permanece eternamente em sua existência individual.
Dessa forma, a sentença de Heráclito interpretada no sentido de que nenhuma coisa na natureza permanece eternamente, que tudo passa e novamente retorna, veta a possibilidade de um conhecimento que tem por base a experiência e os sentidos. No entanto para Platão, todas as coisas sensíveis se encontram em perpetuo fluxo e alteração, de maneira que nenhum conhecimento racional é possível acerca delas.
Se nenhum conhecimento racional do mundo sensível é legitimável, isso afeta também a noção de um fundamento absoluto para o conhecimento do bem e da virtude, privando a existência de toda significação moral. Neste ponto há uma intervenção influenciada por Sócrates, já que este considera o domínio ético cognoscível por conceitos. Sempre nomeamos o justo, o bom e o belo, como algo singular. Nestes conceitos é notável que suas abstrações são empregadas como em sentido adjetivo e não no sentido substantivo. Em Platão esses conceitos não podem estar sujeitos a variações e a inexistência. Por isso não estão sujeitos ao erro. A influencia desses conceitos permite refutar a interpretação de Crátilo a sentença de Heráclito fornecendo uma ocasião apropriada para uma reflexão metafisicamente mais profunda.
Para Sócrates, no domínio da ética era possível chegar a um saber relacionado aquilo que é permanente e supra-sensível. A dialética era o caminho e o método para se chegar a esse saber.
Platão herda de Sócrates e dos pitagóricos o desprezo pelo mundo sensível e pelos sentidos, principalmente a indisposição moral contra a realidade mais próxima. A tarefa ética será dedicar a vida ao culto da dialética; os sentidos perturbam a paz do homem ético.
A predominância da ética no pensamento de Platão permite uma reflexão sobre as ligações entre a doutrina das idéias e a teoria platônica da alma. A perfeição do mundo das idéias é dada pela idéia do bem, ela corresponde a mais alta reflexão platônica do saber e da dialética, sendo a fonte do ser e do saber, e tornando possível a cognoscibilidade e o conhecimento da idéias, sendo superior ao ser e ao saber.
O ponto de partida para a afirmação de um mundo supra-sensível é dado pelas hipóteses éticas de Sócrates, o elemento que prevalece na doutrina platônica da alma também é de natureza ética.
Todos esses elementos fornecem base para o reconhecimento das múltiplas oposições existentes entre mundo sensível X mundo inteligível, com a apropriada ligação da doutrina das idéias e doutrina platônica da alma. A interpretação platônica da postura heraclitiana torna inexistente ao mesmo tempo a realidade e o conhecimento. Ou seja, o verdadeiro ser não pode também, não ser ao mesmo tempo.
A oposição entre mundo sensível e mundo inteligível verdadeiramente real, corresponde a oposição entre opinião e ciência no plano do saber, e , a oposição entre corpo e alma no plano da existência humana.
Nietzsche reverte a ordem dos valores que Platão estabelece entre o conhecimento do permanece idêntico e o devir, considerando que a verdade é a realidade do devir e que o conhecimento é uma fonte de erros e ilusões. De acordo com Nietzsche, a doutrina das idéias esta intimamente associada com a doutrina da imortalidade da alma. No plano da teoria do conhecimento e da ciência a reversão se desdobra no plano da moral, da estética e da política.
Sendo assim, a transvaloração de todos os valores seria a catástrofe da metafísica. Esse processo obedece a uma lógica imanente, Nietzsche formulou esse conceito como niilismo, e é sobre esse conceito que ele descreve a crise irreversível de toda a pretensão a objetividade e a fundamentação do conhecimento racional, como ela corresponde nos fundamentos ético-filosofico de Platão. A via principal para o tema fim da metafísica em Nietzsche consiste em sua analise do niilismo, entendido enquanto experiência histórica da ausência de fundamento.
No final do século XIX, Nietzsche pretendia narrar a antecipação de nossa realidade, ele registrava que a cultura européia se movimentava com uma tortuosa tensão, crescendo a cada século em direção a uma catástrofe, uma cultura que não mais reflete e tem medo de refletir. Assim promovia a ascensão do niilismo.
Nietzsche definia niilismo como: falta a meta; falta a resposta para o “por quê?” para essa interrogação, a solução seria a possibilidade de encontrar uma causa, um sentido nas coisas e acontecimentos. Essas questões teriam como pré-condiçao a qualidade de valores superiores como, sentido, finalidade, causalidade, verdade, realidade, ser, mas igualmente bem e mal, justo e injusto, licito e ilícito, virtude e vicio etc. sem essa resposta, perdem-se os sentidos e os valores que sustentam toda a metafísica. É no niilismo que os supremos valores se desvalorizam.
Mas, com essa explicação, ainda estamos distantes de entender a essência e a medida do problema que o niilismo nos concerne. É preciso recorrer a genealogia para resolver o enraizamento histórico e assim chegar a uma compreensão de niilismo. Nossa cultura nasce sob uma obsessão por explicações, para Nietzsche a cultura nasce desde Sócrates, ela é uma cultura teórica, ou ciência, que repousa sobre o principio universal da razão.
Desde as origens o logos cientifico é seguido pela compulsão de fundamentos, que o impede de percorrer todos os conceitos e princípios. Toda cultura é conduzida a passar necessariamente pela pergunta do “por quê?” em todos os conteúdos, começamos pelos mais primitivos, as ordenações religiosas.
Todo fundamento é um “por quê?”, o “por que” é o primeiro de todos os fundamentos, tornando possível todos os outros, mais sem deixa encerrar em si mesmo.
Por causa da compulsão irresistível a ciência se precipita por seus limites e fracassa, assim a racionalidade percebe que o ultimo fundamento a leva a um abismo sem fim.
Nietzsche denomina de horizonte do infinito, essa desestabilização que lança a racionalidade cientifica a seguir em frente, buscando novos princípios e razoes. O niilismo dessa maneira traz consigo a superfície da consciência do elemento desestabilizador pertencente a todo “por quê?”, traduzindo-se pela impossibilidade de princípios inabaláveis. Entendendo que tais valores e princípios são a sustentação de uma cultura, o niilismo não é a causa da decadência cultural, é apenas o resultado de um processo de declínio, pois no decorrer da historia são extraídas as conseqüências lógicas das pretensões que se esvaziam.
O niilismo deve ser entendido como o acontecimento de significado histórico-mundial onde a consciência filosófica faz também a experiência do elemento nadificante (nihil) na crise de validade dos valores antigos e na ausência de novos valores universalmente validos.
BIBLIOGRAFIA:
Metafísica contemporânea/ Guido Imaguire, Custódio Luís S. de Almeida, Manfredo Araújo de Oliveira (org.). - Petrópolis, RJ: vozes, 2007. vários autores.
terça-feira, 5 de julho de 2011
PAIDÉIA e ARETE A formação do Homem Grego

Janeilson Carlos Damasceno
O presente trabalho tem como objetivo geral contribuir para um estudo crítico e reflexivo sobre a educação grega, com o objetivo de perceber possíveis relações com a educação de hoje. Para tanto, pretende-se desenvolver uma pesquisa bibliográfica, levantando dados históricos da evolução da educação na Grécia, bem como, os ideais de educação daquela época, como por exemplo, a Paidéia e a Arete. O Homem é um ser histórico e por si só, cultural, partindo desde as culturas mais antigas, desde o aparecimento do homem, o pensamento grego é um marco na evolução humana, influenciando todo o ocidente. A reflexão sobre educação, permite dissertar que; educação é um processo em construção permanente, e o homem como um ser cultural, é um ser que se educa constantemente,
A História da Educação, não estuda o passado pelo passado, como coisa morta, mas utiliza esse conhecimento do passado como uma “chave” para entender o presente. O estudo da História da Educação, servi para encontrar o caminho de uma educação realmente voltada para o desenvolvimento pleno do homem e sua realização como cidadão. A visão que os gregos tinham do mundo os distinguia de todos os demais povos do mundo antigo. Os gregos colocaram a razão acima dos seus mitos e a utilizaram como instrumento a serviço do próprio homem. Os gregos glorificavam o homem como o ser mais importante do universo.
Os atenienses acreditavam que sua cidade-estado iria tornar-se a mais forte se cada menino desenvolvesse integralmente as suas aptidões. O governo não controlava os alunos e as escolas. Um garoto ateniense entrava na escola aos seis anos e ficava sob os cuidados de um pedagogo que ensinava aritmética, literatura, música escrita e educação física; o aluno decorava muitos poemas e aprendia a fazer parte dos cortejos públicos e religiosos. As meninas não recebiam qualquer educação formal, mas aprendiam os ofícios domésticos e os trabalhos manuais com as mães. O principal objetivo da educação grega era preparar o menino para ser um bom cidadão. Os gregos antigos não contavam com uma educação técnica para preparar os estudantes para uma profissão ou negócio.
O conceito de Arete aparece como primeiro ideal educativo formulado pelos gregos. É em Homero e nos chamados poemas homéricos, a Ilíada e a Odisséia, que tal ideal educativo aparece originalmente formulado. Já no final da época arcaica, não bastava cobrir-se de honra e glória, como nos tempos homéricos, mas pretendia-se alcançar a excelência tanto no plano físico como no plano moral. Neste tempo aparece a figura do pedagogo, ou seja, do escravo que acompanhava o menino à escola e que vigiava o seu comportamento moral. Porém, este ideal educativo não ficava restrito à escola; a cidade continuava educando nas reuniões políticas, administrativas e jurídicas, nos jogos, nas artes, na arquitetura e nas representações dramáticas. Em nenhum lugar da Grécia o teatro era só para privilegiados, era a escola de todos os cidadãos.
A educação grega tinha duas finalidades: o desenvolvimento do cidadão fiel ao Estado e a formação do homem que adquiriu plena harmonia e domínio de si. Porém a educação grega também tinha uma finalidade cívica, ou seja, a educação é uma preparação para a cidadania. Para eles, o habitante da polis só é o que é porque vive na cidade e sem ela não é nada. Nesse sentido, é evidente que o homem é um animal político e como falou Aristóteles, o que difere o homem dos outros animais é sua qualidade de cidadão e habitante da polis. Essa consciência da cidadania faz sentir a necessidade de uma nova educação, pois a antiga, composta somente por ginástica e música, já não servia para a formação do cidadão e nem correspondia às novas exigências sociais e políticas. Por exemplo, a forma democrática de organização do Estado Ateniense, exigia a participação de todos os cidadãos, ou seja, homens livres e para que esses cidadãos participassem, era necessário ter eloqüência e uma boa formação oratória.
Neste contexto surgem os sofistas, uma nova estirpe de educadores que se apresentam como professores e que oferecem, a troco de dinheiro, o ensino da virtude e da Arete política. Os sofistas transformaram a educação em uma arte ou técnica, na qual eles são mestres e capazes de ensinarem aos seus alunos. Estava incluída neste tipo de educação a formação de homens de Estado e de dirigentes da vida pública. E para que esses homens atingissem êxito político, eles precisavam falar bem, construir discursos persuasivos e ter bons argumentos que justificassem suas posições. Era preciso dominar a arte sofística da oratória, da retórica e da dialética. Por isso os sofistas foram acusados de ensinar uma educação imoral e que corrompia a juventude, posto que, esta educação desconsiderava os valores tradicionais: verdade, justiça, virtude, retidão, etc. Pois para os sofistas não importava que a idéia que eles estivessem defendendo estivesse errada, o que importava era convencer pela oratória.
Durante os séculos V e VI a. C a cultura grega, impulsionada pelas transformações sociais e econômicas, sofre mudanças. Surgem novos grupos sociais ligados ao comércio, estes reclamam uma maior participação na vida política da Grécia. Ao lado disso, surge uma cultura mais crítica em relação ao saber religioso e mítico, que exalta a razão pessoal de cada indivíduo e é capaz de submeter à análise qualquer crença ou tradição. Para transmitir essa nova cultura, nasce um novo ideal de educação na Grécia, conhecido como Paidéia, que busca a formação do homem em suas várias esferas (social, política, cultural e educativa. Essa educação atribui ao homem, sobretudo, uma identidade cultural e histórica. Nasce a pedagogia como saber autônomo, sistemático e rigoroso; nasce o pensamento da educação como episteme; e não mais como ethos e como práxis apenas. A Paidéia é entendida como uma formação geral que dará ao homem a forma humana, ou seja, que o construirá como homem e como cidadão. O termo também significa a própria cultura construída a partir da educação. Era o ideal que os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Assim, ela significou a educação do homem de acordo com a verdadeira forma humana e que brota da idéia.
O termo Paidéia não pode ser traduzido simplesmente como educação, significa muito mais que isso, significa também cultura, instrução e formação do homem grego. Este termo começou a ser utilizado no séc. IV a.c. e nesta época significava apenas a criação dos meninos. Mas o seu significado se alargou e passou a designar também o conteúdo e o produto dessa educação. Enfim, a Paidéia, é a busca do conhecimento do homem, de forma individual, para que este possa interferir na organização política e social da pólis, a idéia principal é colocar o homem a par de todo o conhecimento necessário para a harmonia consigo próprio e com a comunidade ao seu redor.
A educação formal, propriamente dita, teve início na Grécia antiga. Com intuito de atingir o objetivo deste trabalho é possível indicar alguns traços característicos da cultura grega que proporcionaram o desenvolvimento do ensino, tipo: o descobrimento do valor humano, do homem em si, da personalidade, o reconhecimento da razão, da inteligência crítica, a criação da vida cidadã, do Estado, da organização política. A criação da liberdade individual e política dentro da lei e do Estado; a invenção da poesia épica, da história, da literatura dramática, da filosofia e das ciências físicas; o reconhecimento do valor decisivo da educação na vida social e individual; da educação pública a consideração da educação humana em sua integridade física, intelectual, ética e estética.
Todas essas características anteriormente citadas continuam sendo metas a serem atingidas pela educação atual. Assim, espera-se que esse trabalho possa ter colaborado para a efetivação de um estudo crítico e reflexivo sobre a educação grega a partir do contexto histórico-social que a influenciou e determinou sob a perspectiva de que, sendo a educação uns produtos humanos e históricos, pudessem perceber a educação atual como parte do desenvolvimento histórico. Paidéia é, talvez, entre todas, a maior e mais original criação cultural do gênio e do espírito gregos e que ainda hoje é pertinente à educação do homem atual, é modelo a ser seguido por todos aqueles que entenderem a educação como prática da liberdade. Enfim, em matéria de educação, os gregos não só definem o modelo, como, indicam a pedagogia a seguir. Por tudo isso, somos levados a concluir que uma história da educação, com sentido e significado para nós, para a nossa realidade educativa atual começa na Grécia Antiga.
BIBLIOGRAFIA:
JAEGER, Werner wilhelm. Paidéia: a formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. – 4ª ed. – São Paulo; Martins Fontes, 2001.
KARL POPPER: OTIMISMO E PESSIMISMO EPISTEMOLÓGICOS NOS DIALOGOS PLATONICOS

Janeilson Carlos Damasceno
Trabalho apresentado na disciplina de Teoria do conhecimento, Prof: Dax Moraes.Como requisito parcial avaliativo do Curso de Filosofia da Universidade estadual do Rio grande o norte, campus de Caicó, para a obtenção dos créditos da disciplina do 4° período .
Caicó-RN
2009.2
Karl Popper apresenta duas teses opostas basicamente só na aparência sobre o alcance do conhecimento. Na sua exposição Popper tem o intuito de esclarecer a doutrina do otimismo epistemológico; ele apresenta também a doutrina do pessimismo epistemológico, que consiste na descrença do poder humano em discernir a verdade.
Até Platão os sábios e os filósofos faziam referência às fontes de conhecimento como de natureza divina. Heráclito e Parmênides afirmavam a existência de fontes divinas que garantiam a veracidade de suas historias e seu conhecimento. Heráclito considerava-se um profeta possuído por Zeus fonte de toda sabedoria. Parmênides possui como guia e inspiração a deusa Diké, descrita por Heráclito como a guardiã da verdade. A doutrina da origem divina do conhecimento tem um papel decisivo na teoria da anamnesis de Platão, onde ele mantém o otimismo de que a verdade pode ser alcançada pelo homem, mas, em certa medida, ele da a todos os homens o acesso as fontes do conhecimento, essa doutrina é chamada de doutrina da verdade evidente, e pode ser observada no diálogo Mênon de Platão.
No Mênon, Platão diz que não há nada que nossa alma imortal já não saiba antes de nascermos, como todas as naturezas são semelhantes, nossa alma é semelhante a todas as naturezas. Ao nascer esquecemos, mas podemos recobrar a memória, e recuperar o conhecimento que já tínhamos, ao ver de novo a verdade, nós a reconhecemos; essa seria a causa da nossa ignorância. Essa teoria implica que nossa alma permanece num estado divino de onisciência enquanto participa do mundo divino da natureza, antes do nascimento. Este acontecimento corresponde a queda do estado de graça, do estado divino no qual tudo conhecemos, este seria, portanto, a causa e a origem da nossa ignorância.
Popper declara que existe um laço entre a teoria da anamnesis e a doutrina da verdade evidente; mesmo no estado de privação e esquecimento, se virmos a verdade não poderemos deixar de reconhecê-la. O otimismo epistemológico, a doutrina da verdade evidente e a teoria da conspiração, têm conseqüências negativas, parecidas com o pessimismo epistemológico. Popper observa que, o problema principal do otimismo epistemológico é que a verdade é frequentemente difícil de ser encontrada, e se perde com grande facilidade, e que crenças errôneas têm a capacidade de sobreviver por milhares de anos.
A descrença no poder da razão humana de discernir a verdade gera o pessimismo epistemológico. A doutrina da anamnesis de Platão é otimista porque acredita que qualquer um pode alcançar a verdade. Platão demonstra isso fazendo com que o escravo Mênon, sem qualquer instrução em geometria, construísse um quadrado com o dobro da área de um outro, Mênon pôde fazer isso pelo fato de que aquele conhecimento estar nele próprio, na sua alma.
Platão modifica sua epistemologia otimista tornando-a pessimista, na Republica. Platão diz: numa caverna, homens estão acorrentados de uma maneira que só podem olhar para a parede a sua frente e nela vêem somente sombras de objetos que não vêem, ao passarem na entrada da caverna, como também não vêem a luz que ilumina essas coisas, projetando sombras. Se, por um acaso, acontecesse que um prisioneiro conseguisse virar a cabeça e descobrir os objetos reais, concluiria que sua visão até então era sombra de uma realidade que lhe era oculta. Se, enfim, pudesse sair da caverna poderia ver o fogo ou o Sol que são a origem ou causa das sombras as quais pode observar dentro da caverna. Na comparação da caverna, o prisioneiro, só depois de libertado, poderá superar a mera opinião e conhecer a verdade, e teria a possibilidade de, pouco a pouco, chegar as idéias.
Para Platão, conhecimento verdadeiro só é possível em relação ao mundo transcendente das idéias. O acesso para compreender as idéias não é a experiência sensível, por que os sentidos podem enganar. O conhecimento das idéias baseia-se na suposição de que a alma, num estagio anterior, já as tenha captado.
Na analogia da caverna Platão mostra que, o mundo da nossa experiência é apenas sombra, um reflexo do mundo real; mesmo que um dos prisioneiros pudesse escapar da caverna para ver o mundo da realidade, enfrentaria dificuldades para entendê-lo, e também para transmitir sua experiência aos outros prisioneiros da obscuridade. Os obstáculos que surgem no processo de compreensão do mundo real são quase sobre-humanos, só uns poucos podem alcançar o estado divino de entendimento da realidade. Esses poucos, segundo Platão, são os filósofos, é por isso que estes devem governar, pois são os únicos capazes de alcançar o conhecimento da verdade.
Para Popper essa é uma teoria pessimista, no que se refere a quase toda a humanidade, pois ensina que só uns poucos eleitos podem alcançar a verdade. Mas, com relação a esses poucos, é uma visão mais otimista que a doutrina da verdade evidente assim, em Platão se encontra a primeira transição do otimismo para o pessimismo na teoria do conhecimento.
“A Tecnologia Assistiva vencendo barreiras, possibilitando saberes.”
“A Tecnologia Assistiva vencendo barreiras, possibilitando saberes.”
Janeilson Carlos Damasceno
Trabalho apresentado na disciplina de Educação especial, Prof: Iva Costa .Como pré-requisito parcial avaliativo do Curso de Filosofia da Universidade estadual do Rio grande o norte, campus de Caicó, para a obtenção dos créditos da disciplina do 6° período .
caicó-RN
2009.2
As tecnologias assistivas disponibilizam a construção da autonomia, aprendizado, desenvolvimento e inclusão social de alunos com necessidades educacionais especiais. Dessa forma na sociedade atual com novas realidades e paradigmas humanos é possível questionar a diversidade e pensar novos caminhos de inclusão social da pessoa com deficiência.
O desenvolvimento de recursos de acessibilidade é uma maneira concreta de neutralizar as barreiras causadas pela deficiência e inserir esse individuo – até então com limitações – nos ambientes ricos para a aprendizagem, proporcionados pela cultura, podendo também combater os preconceitos a que os indivíduos com deficiência esta sujeito.
Tecnologia assistiva é qualquer ferramenta, recurso ou processo utilizado com a finalidade de proporcionar uma maior independência e autonomia a pessoa com deficiência.
A grande maioria das necessidades dos alunos é resolvida com recursos de baixo custo, simples e artesanais, muitas vezes pesquisados e desenvolvidos por seus professores. Existem também sofisticados programas de computador que proporcionam a acessibilidade.
As tecnologias assistivas que serão utilizadas com os alunos têm que partir de um estudo individual de cada um.
Janeilson Carlos Damasceno
Trabalho apresentado na disciplina de Educação especial, Prof: Iva Costa .Como pré-requisito parcial avaliativo do Curso de Filosofia da Universidade estadual do Rio grande o norte, campus de Caicó, para a obtenção dos créditos da disciplina do 6° período .
caicó-RN
2009.2
As tecnologias assistivas disponibilizam a construção da autonomia, aprendizado, desenvolvimento e inclusão social de alunos com necessidades educacionais especiais. Dessa forma na sociedade atual com novas realidades e paradigmas humanos é possível questionar a diversidade e pensar novos caminhos de inclusão social da pessoa com deficiência.
O desenvolvimento de recursos de acessibilidade é uma maneira concreta de neutralizar as barreiras causadas pela deficiência e inserir esse individuo – até então com limitações – nos ambientes ricos para a aprendizagem, proporcionados pela cultura, podendo também combater os preconceitos a que os indivíduos com deficiência esta sujeito.
Tecnologia assistiva é qualquer ferramenta, recurso ou processo utilizado com a finalidade de proporcionar uma maior independência e autonomia a pessoa com deficiência.
A grande maioria das necessidades dos alunos é resolvida com recursos de baixo custo, simples e artesanais, muitas vezes pesquisados e desenvolvidos por seus professores. Existem também sofisticados programas de computador que proporcionam a acessibilidade.
As tecnologias assistivas que serão utilizadas com os alunos têm que partir de um estudo individual de cada um.
Do equilíbrio do corpo, ou o modo como o corpo é pensado enquanto questão filosófica.

O corpo humano (sarkós) é um componente importante para a compreensão do pensamento epicúreo como um todo. O corpo é pensado como um receptáculo das influencias sensíveis que o meio exerce sobre o individuo. Ele é o ponto de partida da percepção humana, a partir dele tem lugar a aisthesis, que é o conjunto das sensações, de onde serão possíveis as prolépseis, ou impressões sensíveis, que serão operadas pelo pensamento (dianóia). Mas o que é este corpo para Epicuro?
A compreensão epicúrea de corpo humano (sarkós):
Segundo Epicuro, conhecemos as coisas quando sentimos sua expressão em nós. Neste sentido, buscamos naturalmente afecções que produzam sensações constitutivas e agradáveis. O corpo se comunica com as coisas do mundo provando-as e tendo como critério de escolha e rejeição das afecções possíveis o prazer e a dor.
A alma também é corpo. Distingue-se da carne por suas propriedades físicas e por sua função racional e imaginativa, que articula as impressões sensíveis e projeta-as enquanto pensamento. A interação feita entre carne e alma transforma as sensações em sentimentos ou ainda, em compreensão ou pensamento. Carne e alma não podem ser pensadas separadamente.
As afecções só se expressam como prazer ou dor na interação carne/alma.
É neste ponto que incide a possibilidade do equilíbrio do corpo. Na compreensão epicpurea, duas possibilidades de equilíbrio podem ser aferidas. A primeira nos remete aos cuidados que é preciso ter com o corpo carne, tanto no sentido de evitar as carências e os excessos, que provocam as doenças, quanto no de curá-las. A segunda revela que o equilíbrio resulta da ação do pensamento sobre o corpo-carne e que pode ser descrito como uma espécie de terapeía, onde o logos atua diretamente no corpo, possibilitando o estabelecimento de uma medida-limite para os desejos carnais, que nem sempre se acalmam com a simples repleção, são desejos naturais ao corpo. Neste estado, o corpo encontra-se já em equilíbrio e expressa o bem-estar, ou prazer. A satisfação dos desejos naturais mais não necessários poderá fazer variar o prazer que ele já sente.
Como Epicuro trabalha essa relação na sua filosofia tendo em vista a busca por equilíbrio? A resposta a essa questão implica entender a questão dos “desejos da carne”. A classificação de Epicuro apresenta três categorias que dispõem a respeito da aquisição do bem-estar e da manutenção de uma boa disposição para o corpo, e como o que causa o seu desequilíbrio. A classificação dos desejos apresenta o seguinte quadro: existem os desejos naturais e necessários, os naturais e desnecessários e os não naturais e não necessários.
Simplificadamente tem-se o seguinte: os desejos naturais e necessários são aqueles que impelem o corpo na direção das coisas que bastam à sua satisfação, por exemplo, o corpo necessita basicamente de alimentos, de água e de proteger-se do frio e intempéries similares; os desejos naturais e desnecessários são aqueles vinculados aos excessos ou carência de algo; e os desejos não naturais e desnecessários dizem respeito à externalidade, tais como a ereção de estátuas ou imagens em honra de si próprio.
Para Epicuro, viver de acordo com a natureza significa dar vazão aos desejos naturais e necessários, entendendo que a medida de satisfação desses desejos está na relação estabelecida entre o corpo e os fenômenos de repleção, satisfação e proteção oferecidos pelo mundo natural. A natureza nos oferece mais do que o necessário, daí surge a importância de “trabalhar” o domínio de si, ou seja, de buscar um métron capaz de auxiliar a aquisição do equilíbrio. Para a realização dos desejos naturais e necessários, importa circunscrever o agir humano no âmbito da phrónesis (sabedoria) e da autárkeia (o senhorio de si mesmo). Assim, a atitude de uma pessoa marcada pela phrónesis implica numa “vontade esclarecida”. Toda essa posição pode ser retomada pela seguinte assertiva de Diógenes Laércio: “Tudo o que é natural pode ser facilmente satisfeito, ao passo que tudo o que é vão é difícil de satisfazer”
Tendo presente de que tudo o que precisamos está na natureza, Epicuro parece indicar que o melhor phármakon (remédio) para o restabelecimento ou manutenção da saúde do corpo é a alimentação equilibrada e a administração de cuidados necessários à prevenção contra todo excesso e toda carência.
A analise dos sarkós envolve um conjunto de reflexões em torno do cuidado do corpo.
Sabemos de diversas interseções entre medicina e filosofia no pensamento antigo, podemos estabelecer analogias entre a medida do agir e a medida do cuidar, ambas tendendo sempre a um equilibrio, seja como “justa medida”, seja como ”meio-termo”.
Tanto a filosofia, quanto a medicina buscam explicar o cuidado de si, tendo em vista que a ação de cuidar é própria do ser do homem.
Epicuro concebe a filosofia como o exercício de uma sabedoria para a vida e pensa ser este o caminho para a realização da natureza do sofhós em seu vigor e potencia. O saber medico parece também buscar a realização do corpo em todo o seu vigor e potencia, que são expressos do modo de ser da própria natureza.
A medicina surge como techné primeiramente enquanto prescrição alimentar, que se serve da dosagem como critério de medida para manter ou restituir o equilíbrio ao corpo.
O contexto no qual a medida antiga situa o homem é o mundo natural. Conhecer os problemas de determinado homem, para assim diagnosticá-lo, significava conhecer o que ele é em relação ao que ele como e bebe, a sua maneira de viver e os efeitos que tudo isto produz. A medicina é uma techné, pois tende a conhecer a natureza das realidades sobre as quais se debruça.
O saber medico busca se preciso, mais não é uma ciência exata; ainda que vise estabelecer uma medida que restaure o equilibrio de um corpo, ela não trabalha com números genéricos que possam ser apresentados com exatidão. Em medicina, a esta precisão raramente se encontra, talvez por trabalhar, sobretudo com a ordem concreta e fenomênica da realidade.
A medicina antiga, paralelamente à physiología grega, compreende a natureza animada do homem como efeito da combinação das quatro qualidades fundamentais, ou seja: o quente, o frio, o seco e o úmido. Isto a que chamam combinação tem uma modo pleno de se dar, ao qual podemos chamar equilíbrio.
Um corpo esta em equilíbrio, quando seus humores se encontram numa proporção justa, isto é, quando o organismo corresponde ao seu sentido próprio de realização ou a sua natureza.
E a doença decorre necessariamente do desequilíbrio ou desarmonia entre os humores. Já o tratamento pra a restituição do equilíbrio depende da compreensão que o medico tem da doença e dos meios, se eles existem, de combatê-la.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. da 1ª versão brasileira coordenada e revista por Alfredo Bosi; revisão da tradução e tradução de novos textos Ivone Castilho Benedetti. 4ª edição, Martins Fontes: São Paulo, 2000.
HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos. Martins Fontes: São Paulo, 2001.
SILVA, Markus. Epicuro: sabedoria e jardim. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003
quinta-feira, 30 de junho de 2011
LIBERDADE E MORALIDADE EM KANT

LIBERDADE E MORALIDADE EM KANT
Janeilson Carlos Damasceno*(graduando do curso de filosofia da universidade do estado do Rio Grande do Norte)
RESUMO:
Este artigo pretende apresentar de modo suncinto, alguns dos principais problemas da ética kantiana, a saber, como é possível a liberdade? A liberdade está submetida a alguma lei? Para Kant a ação moral só é possível se for por dever, isto é, obedecendo a lei na forma do imperativo categórico.
PALAVRAS-CHAVE: Liberdade. Dever. Imperativo categórico. Lei-moral. Heteronomia. Autonomia.
I-INTRODUÇÃO:
Este artigo pretende apresentar, de forma sucinta, uma pesquisa acerca dos conceitos de liberdade e moralidade apresentados por I. Kant, expressos na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, referentes ao estudo da ética. Diante do processo de explicação da liberdade queremos entender se ela esta submetida à lei moral, e a outros conceitos, tal como o de razão, vontade, imperativo categórico, etc. surge a necessidade de explicar como essa lei moral é possível, e como a liberdade esta submetida a ela?
Na vida, nos deparamos com situações constantes que nos faz refletir sobre as relações de liberdade e poder entre os sujeitos; e que nos causam inquietações diante desses acontecimentos cotidianos. Esses fragmentos de vida nos fazem pensar e refletir sobre o universo e a influência causada pelo peso da tradição cultural e da educação dos sujeitos enquanto agentes morais. Diante disso, surge a indagação: como é possível a liberdade, já que, mesmo querendo ou não estamos submetidos a tradição cultural e as normas estabelecidas pelos sujeitos da nossa sociedade?
Segundo Kant, “a liberdade tem de pressupor-se como a propriedade da vontade de todos os seres racionais”. A todo ser racional temos que atribui-lhe necessariamente a idéia de liberdade, sob a qual ele unicamente pode agir.
O ser verdadeiramente livre agirá sempre determinado por uma lei moral que se identificará com a própria liberdade do ser racional.
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II- LIBERADE E MORALIDADE:
Segundo Kant o homem enquanto ser puramente racional considera-se livre, enquanto ser fenomenal deve estar submetido à lei moral. A partir da lei moral nos consideramos livres, isto é, auto-legisladores. Um ser racional agiria sempre conforme a razão, o homem que pertence ao mundo sensível e ao mundo inteligível, tem que considerar-se como submetido a leis prescritivas da razão. A razão contem a idéia de liberdade e esta contem a lei do mundo inteligível. Logo, todo ser racional tem que conhecer as leis do mundo inteligível com imperativos e as ações deles decorrentes como deveres.
todo ser que não pode agir senão sob a idéia de liberdade é, por isso mesmo, verdadeiramente livre em sentido pratico, que dizer, valem para ele todas as leis que estão inseparavelmente unidas a liberdade, exatamente como se a sua vontade fosse definida como livre em si mesma e de modo valido na filosofia teórica. (Kant, 2003pg. 81)
Kant chama de liberdade a capacidade que um ser racional tem de agir de acordo com leis determinadas unicamente pela razão. Distinguindo assim dois usos de liberdade: um negativo, que incorpora a nossa capacidade de agir independentemente de quaisquer outras coisas para além da nossa própria vontade ou razão; outro positivo, que se refere ao poder causal da razão em se auto-determinar, nos permitindo agir autonomamente, apenas com base na nossa razão. A partir da visão da racionalidade humana como fim em si mesma, e da necessidade da concordância da vontade com a razão prática, Kant concebe a idéia de vontade de todo ser racional como vontade legisladora universal.
Segundo esse principio são rejeitadas todas as máximas que não possam subsistir juntamente com a própria legislação universal da vontade. A vontade não está, pois, simplesmente submetida à lei, mas sim submetida de tal maneira que tem de ser considerada também como legisladora ela mesma, e exatamente por isso e só então submetida à lei (de que ela se pode olhar como autora). (KANT, 2003 pg. 62)
A liberdade não é mais do que a mera subordinação a lei moral, e nunca é tão intensa como o é quando reconhecemos a necessidade da lei e a sua absoluta autoridade sobre as nossas ações enquanto agentes morais. Por exemplo, uma pessoa pode agir de acordo com a lei, motivada pelo medo ou na esperança de receber uma recompensa. Nestes casos, a sua ação não tem valor moral, pois depende de fatores que não pertencem a própria lei “ser livre é ser moralmente responsável. Vontade livre e vontade submetida a leis morais são uma e a mesma coisa. (Kant, 2003, pg. 80)”.
Agir por dever ou pela lei, é o único tipo de ação com valor moral. Uma vez que o que nos motiva a agir neste caso é em si a lei, e que surge do mero exercício da razão. Logo, ao agir por dever um agente racional expressa ao mesmo tempo aquilo a que Kant chama a autonomia da vontade. Assim, uma ação autônoma é determinada por mera reflexão racional, que é suficiente para determinar a ação. Deste modo, para Kant, o significado de agir autonomamente não é mais do que a nossa habilidade e responsabilidade para saber o que a moralidade requer de nós e a nossa determinação para não agir imoralmente.
A autonomia da vontade é, pois, a propriedade pela qual ela é para si mesma sua própria lei. O principio de autonomia indica “não escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam incluídas simultaneamente no querer mesmo, como lei universal.(Kant, 2003, pg.70)” Em oposição a autonomia da vontade encontra-se a heteronomia da vontade.
quando a vontade busca a lei, que deve determiná-la, em qualquer outro ponto que não na aptidão de suas máximas para a sua própria legislação universal, quando, portanto, pensando alem de si mesma, busca essa lei na natureza de qualquer dos seus objetos, o resultado é sempre a heteronomia. (Kant, 2003, pg.71)
Um agente que age em heteronomia não age segundo os mandamentos da razão, mas, por exemplo, age por medo ou por amor ou na esperança de obter uma recompensa. Aquele que age em heteronomia age segundo preceitos práticos e a sua ação é destituída de valor moral. Kant avalia que todos os princípios da heteronomia, sejam empíricos ou racionais, mascaram o problema da liberdade da vontade e da moralidade autêntica dos próprios atos. E que a autonomia da vontade é o único principio de todas as leis morais e dos deveres. Em contrapartida, toda heteronomia da escolha não fundamenta nenhuma obrigação e se opõe ao principio do dever e a moralidade da vontade.
A heteronomia surge sempre quando a lei que determina a vontade não possuir sua máxima de acordo com a legislação universal. A vontade deixa de ser ela mesma sua própria legisladora, e é guiada por leis que se originam na relação entre ela e seus objetos. A autonomia da vontade será explicada pelo conceito de liberdade, sem o qual é impossível embasar a moralidade na vontade.
As máximas de uma ação heterônima, ao contrario das da ação autônoma, tem um caráter contingente. Estas são máximas materiais obtidas pela experiência: determinam os meios para se chegar aos fins desejados. E é porque servem os desejos, e não a razão, que são heterônimas e destituídas de valor moral. Elas motivam a agir apenas de modo condicional e subjetivo; só agimos segundo estas máximas se temos desejos que elas ajudam a satisfazer, caso contrario podemos ignorá-las, estas são preceitos práticos ou imperativos hipotéticos.
Uma vez que os preceitos práticos ou imperativos hipotéticos não determinam a vontade simplesmente como vontade, não são leis. As leis originam-se no raciocínio puro prático e aquilo que as caracteriza é a sua forma. Estas leis são regras que estabelecem pela sua forma o que é agir racional e moralmente e, conseqüentemente, objetivamente. A isso Kant chama lei da liberdade ou da autonomia.
Tempos que pressupô-la (moralidade a idéia da liberdade) se quisermos pensar um ser como racional e consciente de sua causalidade a respeito das ações, isto é, dotado de uma vontade, e assim achamos que exatamente pela mesma razão, temos de atribuir a todo ser dotada de razão e vontade essa propriedade de se determinar a agir sob a idéia de sua liberdade. (KANT, 2003, pg. 81 a 82)
O homem, criatura racional e corpórea, habitará dois mundos, o sensível e o inteligível. O primeiro será determinado por leis naturais (heteronomia); enquanto o segundo será movido por leis, não empíricas, mas racionais. Neste mundo inteligível o homem será livre e dono de uma vontade verdadeiramente autônoma.
Como ser racional e, portanto, pertencente ao mundo inteligível, o homem não pode pensar nunca a causalidade da sua própria vontade se não sob a idéia da liberdade, pois que independência das causas determinantes do mundo sensível (independência que a razão tem sempre de atribuir-se) é liberdade. Ora, à idéia da liberdade está inseparavelmente ligado o conceito de autonomia, e a este o princípio universal da moralidade, o qual na idéia está na base de todas as ações de seres racionais como a lei natural está na base de todos os fenômenos. (KANT, 2003, pg 85)
É preciso que a idéia de liberdade possa ser atribuída a todos os seres racionais, já que a moralidade tem que valer como lei universal. A liberdade tem de ser pressuposta como propriedade da vontade de todo ser racional, e não basta, verificá-la por experiências da natureza humana; pois, todo ser que não pode agir senão sob a idéia da liberdade é verdadeiramente livre, exatamente como se a sua vontade fosse definida como livre em si mesma, pois do contrário ele não poderia, de modo algum, pensar-se como agente.
o uso prático da razão comum humana confirma a exatidão dessa dedução. Não há ninguém, mesmo o pior facínora, se está habituado a usar da razão, que não deseje, quando se lhe apresentam exemplos de retidão nas intenções, de perseverança na obediência a boas máximas, de compaixão e universal benevolência; que não deseje ter também esses bons sentimentos. (KANT, 2003, pg.87)
A razão vê a necessidade de impor regras á conduta humana, que se expressa pelo imperativo categórico. Eles mandam uma ação objetivamente, necessária por si mesma, sem relação de finalidade: uma ação boa em si mesma.
O imperativo categórico da a forma de legislação moral: “age só segundo máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.(Kant, 2003, pg. 51)”
A liberdade se subdivide em interna e externa. A interna fundamenta a existência de leis internas, que criam deveres internos, na forma de imperativos categóricos. E é esta mesma liberdade interna que fundamenta a existência de leis exteriores, que tornam possível o convívio das liberdades individuais. A moral não é suficiente e a mesma liberdade que manda o homem agir conforme o dever interno e pelo dever interno, manda que sejam criadas leis externas para garanti-las. Quem age moralmente, age por dever, pois este dever advém da razão, lei universal. Agir por dever é agir racionalmente e exercitar a verdadeira liberdade, livre das inclinações externas do mundo sensível.
A liberdade externa pode ser explicada da seguinte forma: ninguém me pode constranger a ser feliz a sua maneira, mas a cada um é permitido buscar a sua própria felicidade pela via que lhe parecer boa, contanto que não cause dano a liberdade dos outros, segundo uma lei universal possível. Para que uma máxima da razão seja também uma lei moral é preciso que ela seja universalizável. Isso significa que a máxima deve poder ser reconhecida como legitima por qualquer ser racional, uma vez que o que caracteriza as leis é o fato de elas valerem incondicionalmente em qualquer lugar e para qualquer pessoa.
Kant explica assim que, liberdade não é agir independentemente do dever, mas, ao contrário, agir conforme e, sobretudo por dever. Liberdade não é o agir sem normas, ao contrario, liberdade implica a disposição de seguir as normas que o próprio sujeito moral se representa, tendo em vista apenas o respeito que devemos a essas normas ou leis morais a que estamos submetidos. Diante disto, ingada-se: em que situação a ação humana pode ser considerada livre? Se a ação humana é aquela que não sofre influência de uma força externa, ser livre é não se submeter a nada de externo a nós?
III- CONCLUSÃO:
Para Kant, portanto, são a mesma coisa liberdade e lei moral. Somente é livre o individuo que age segundo a lei moral. A vontade livre estará necessariamente orientada para o bem, que se concretiza no agir segundo as leis da liberdade: a vontade de agir conforme ela será perfeita. A virtude e a bondade moral da ação de um individuo serão obtidas na orientação constante do agir e do querer segundo normas de validez universal.
O primeiro passo para a determinação de um agir moralmente bom é uma vontade boa, e deve vir acompanhada pelo dever de se cumprir suas determinações. A sua lei geral, "desvelada" pela razão, impõe-se à vontade como um imperativo categórico, puramente formal, livre de todo dado empírico, o que coloca a vontade como independente em relação à matéria de qualquer máxima. As máximas da ação deverão satisfazer condições racionais, isto é, deverão poder ser englobadas pela lei geral do imperativo.
Esse dever, de agir somente por respeito à lei moral, é fruto da racionalidade do homem, o que nos permite deixar a condição de simples coisas e passarmos a sermos sujeitos, donos de uma vontade.
Se a função da razão que temos é transformar a vontade em vontade boa e, conseqüentemente autônoma, ou seja, livre, o homem tem como dever caminhar para o seu fim moral, obter a sua liberdade, submetendo-se às leis próprias da liberdade, porque "se a razão não quer se submeter à lei que ela se dá a si própria, tem de se curvar ao jugo das leis que um outro lhe dá; pois sem alguma lei nada, nem mesmo o maior absurdo, pode exercer-se por muito tempo."
A vontade autônoma é aquela que se submete à lei moral encontrada por ela mesma, lei que define sua liberdade. E é esse o dever que se impõe ao homem: ser livre.
IV- REFERÊNCIA BIBLIOGRAFIA:
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes E Outros Escritos. São Paulo: Matin Claret, 2003.
V- BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfredo Bosi e Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
PASCAL, Georges. O pensamento de Kant. Intro e trad: Raimundo vier. 7ª Ed. Rio de Janeiro: Vozes 2001.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. São Paulo : Paulinas, 1990. 3v, il. (Filosofia).
ROHDEN, Valério. Interesse da razão e liberdade. São Paulo: Ática, 1981.
SALGADO, Joaquim Carlos. A idéia de justiça em Kant: seu fundamento na liberdade e na igualdade. 2. ed. Belo Horizonte : UFMG, 1995.
Fé e Razão no pensamento de Kant

Kant, com sua publicação da Critica da razão pura, demonstra explicitamente que a razão pura não consegue atingir os objetos que ela (a razão) pretende na metafísica, sem cair nas famosas antinomias e que o conhecimento científico é conhecimento simplesmente do fenômeno e das leis necessárias que regem suas relações. A famosa frase kantiana “tive que limitar o conhecimento para abrir espaço para a fé” demonstra que são domínios diferentes, irredutíveis e incombináveis. No primeiro o “aparato cognitivo do sujeito”, com suas formas puras da intuição consegue fazer a síntese entre tempo e espaço com os conceitos a priori (categorias) e assim fundamentar a ciência do fenômeno. Com essa argumentação, Kant separa o domínio do conhecimento do domínio do puramente pensável.
Os objetos da fé são apenas pensáveis, não podemos conhecê-los através da razão pura, pois não são fenômenos e sim coisas em si. Desse modo a fé opera como sentimento, como revelação, mas nunca como razão, afinal, se a fé dependesse de demonstração racional, não haveria porque ser fé, e saber que algo existe é diferente de crer que algo existe. Saber é demonstrar, crer é um ato de confiança, de sentimento.
Temos muitos exemplos na história da filosofia na tentativa de conciliação entre fé e razão, porém, seria proveitoso ver como isso se dá na história na mesma medida em que seria impossível fazê-lo aqui, mas temos a convicção de que essas duas instâncias podem ser submetidas uma à outra, mas não combinadas, conciliadas. A razão não se contenta com o conhecimento do mundo empírico e quer conhecer o infinito, que se encontra conceituado na razão como idéia. As idéias da razão pura são redutíveis a três: a alma, o mundo e Deus.
A existência de Deus pode ser argumentada filosoficamente, porém, ser definida já é um problema que dificilmente poderá ter uma resposta positiva. Há quase 3000 anos que a questão da existência de Deus é suscitada sem previsões de acabar (claro que por parte dos filósofos ateus essa questão é um falso problema). Desde a Grécia clássica essa questão foi colocada aos filósofos, mas nunca como um problema realmente sério. Platão, Aristóteles, os estóicos, os sofistas, Sócrates e muitos outros nunca duvidaram da existência dos deuses, porém, Protágoras, o grande sofista, afirmava que qualquer suposição acerca dos deuses era errada, alegando que seu conhecimento era impossível. Uma primeira análise permite reduzir todas as provas possíveis a três: a prova ontológica, a cosmológica e a físico-teológica.
Apenas com Kant é que a natureza do erro desse argumento é apresentada. Para Kant, a existência não é algo que podemos predicar, e nem definir. A existência tem um sentido muito claro no campo do conhecimento possível. A existência é uma categoria formal, como a causalidade. Podemos apenas aplicar essas categorias às percepções sensíveis. Para afirmar que algo existe, possuir a simples idéia de algo não garante a existência, pois as coisas não existem por definição. É necessário obter a percepção sensível correspondente. Ora, não podemos ter a percepção sensível correspondente de Deus, pois Deus não é um fenômeno, não se apresenta aos meus sentidos. Kant então encontra a natureza do erro do argumento ontológico e impossibilita a existência de Deus como mera definição ideal.
Com essa exposição, concluiu-se, demonstrando então que fé e razão colidem-se sempre e isso é inevitável, pois a razão sempre exigirá demonstração, seja empírica, seja lógica , e a fé possui a virtude de não exigir tal demonstração, senão acaba perdendo seu estatuto de fé. Essas duas instancias pretendem dizer coisas diferentes sobre o mundo e as coisas, e cada uma, a seu modo possuem defeitos e virtudes, contudo, qualquer um que se deixe pensar consequentemente pode aceitar as demonstrações da razão, mas apenas alguns aceitarão as proposições da fé.
REFERÊNCIAS:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. da 1ª versão brasileira coordenada e revista por Alfredo Bosi; revisão da tradução e tradução de novos textos Ivone Castilho Benedetti. 4ª edição, Martins Fontes: São Paulo, 2000.
CAYGILL, H. Dicionário Kant. Tradução: Álvaro Cabral. Ed.: Jorge Zahar. Rio de
Janeiro, 2000. 353 p.
HUISMAN, Denis. Dicionário dos Filósofos. Martins Fontes: São Paulo, 2001.
KANT. I. Crítica da Razão Pura. 5ª Edição. Trad.: Manuela Pinto e Alexandre Morujão. Ed.: Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 2001, 680 p.
PASCAL, Georges. O pensamento de Kant. Intro e trad: Raimundo vier. 7ª Ed. Rio de Janeiro: Vozes 2001.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. São Paulo : Paulinas, 1990. 3v, il. (Filosofia).
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